Declaração de Impacto Ambiental e Social da Quinta das Damas

Participação Pública do movimento “Cidadãos pela Ajuda” 

Ex.no Presidente da Câmara Municipal de Lisboa, Eng. Carlos Moedas,  

Vimos por este meio apresentar a nossa apreciação negativa relativa ao loteamento urbano da  “Quinta das Damas” e solicitar esclarecimentos sobre alteração de projeto inicial aprovado pela  CML, sobre os impactos ambientais negativos e sem medidas realistas e suficientes de mitigação  – bem como recomendar novas medidas, a integrar na DIA, para mitigar não apenas os referidos  impactos ambientais mas, face à situação de crise de habitação e à falta de medidas para a  dirimir – e face ainda ao contexto de escassez de espaços e equipamentos sociais e espaços  verdes da freguesia da Ajuda – solicitar a urgente inclusão de medidas compensatórias, de  fomento, quer de espaços públicos quer de habitação acessível. 

Diferenças em relação ao projeto anterior: O projeto de loteamento atual apresenta  modificações significativas em relação ao projeto previamente submetido à apresentação e  discussão públicas no âmbito da Unidade de Execução da Ajuda (UEA). Estas diferenças podem  ter implicações tanto no desenho urbano quanto nos impactos ambientais e sociais da  intervenção. É por isso enganador e contra o espírito de uma Participação Pública que os  residentes tenham sido informados e consultados sobre um projecto e agora estamos perante  algo bem diferente. 

A extensa participação pública descrita na Declaração de Impacte ambiental (DIA) comprova que  o projeto é gerador de dúvidas e impactos significativos pelo que o seu licenciamento em fase  de obra deve ainda ser questionado. O cumprimento integral da DIA e extensas medidas deve ser garantido por uma comissão independente criada para o efeito. 

Deficiências da EIA e DIA 

A DIA não dá resposta a todas as deficiências óbvias do EIA e dos estudos técnicos que o  acompanham (nomeadamente, o estudo hidrológico deficiente e, a jusante, o incipiente plano de  saneamento). Apesar da DIA, o projecto continua a demonstrar fragilidades notáveis,  particularmente no que se refere ao impacto na biodiversidade, movimentação de terras,  enquadramento urbano, socioeconómico, ao trânsito, ao ruído, à qualidade do ar, bem como à  gestão de águas pluviais e residuais. Estas deficiências comprometem a capacidade da DIA de  minimizar de forma adequada os impactos do loteamento. 

A DIA não dá resposta à série de impactos significativos e deficiências levantados pelas várias  entidades e cidadãos na participação pública e deve por isso incorporar novas condicionantes – nomeadamente as seguintes: 

A área de implantação do projeto está localizada numa Zona Especial de Proteção (ZEP) do  Palácio Nacional da Ajuda. A solução urbanística proposta para o Loteamento da Quinta das 

Damas é disruptiva em termos estéticos e volumétricos, não respeitando a malha urbana  pré-existente – irá impactar negativamente a integridade visual e patrimonial da área. Os 3D  apresentados não situam os pontos de vista a 1,5 m do solo para se poder averiguar os impactos  visuais de quem caminha na Alameda dos Pinheiros, nem na plataforma ajardinada mais abaixo.  Ficamos sem saber se a altura das construções barra, ou não, a vista da encosta e do Tejo. A  DIA deve incluir obrigatoriedade do promotor entregar em fase RECAPE os 3D referidos  esclarecendo o impacto na vista. 

O espaço verde previsto após a construção foi significativamente reduzido em relação ao  projeto original que foi apresentado à população. Esta redução implica uma perda de funções  ecológicas essenciais e de benefícios relacionados ao bem-estar e à saúde das pessoas, bem  como a perda da permeabilização do terreno. O projeto, como apresentado, não respeita o  desenho de jardim público proposto na UEA de 2021, o que agrava o impacto ambiental e social.  O cumprimento da DIA no seu ponto 1, no que diz respeito à não ocupação e impermeabilização  de mais de ⅓ do terreno de construção, deve ser garantido com entrega de planos de pormenor  do projeto à junta de freguesia da Ajuda e às entidades que participaram na discussão pública.  A DIA deve integrar a obrigatoriedade de acesso público. Adicionalmente a DIA deve explicitar  que o acesso ao logradouro do quarteirão maior será público aumentando a fruição de jardim/  espaço natural sem instalação de portões para moradores. As simulações 3D com coberturas  verdes são uma tentativa canhestra de criar a ilusão de um loteamento mais verde do que é na  realidade. Os planos de pormenor do projeto devem incorporar distinção clara de áreas  verdes funcionais e permeáveis. 

O loteamento é totalmente desenvolvido em solos atualmente permeáveis, que serão convertidos  em áreas impermeabilizadas, com quase 28.000 m² de área de construção no loteamento e mais  12.000 m² destinados à escola. Essa transformação pode ter consequências ambientais  severas, como a redução da infiltração de águas pluviais e o aumento do risco de  inundações. A DIA deve incorporar medidas preventivas dessas situações atendendo também  às alterações climáticas, que irão agravar fenómenos meteorológicos anormais, nomeadamente  intensa pluviosidade. A DIA deve obrigar o promotor a apresentar um sistema de informação e  alerta às populações e em particular aos residentes a jusante da Ajuda e Belém sobre  inundações.  

As medidas de minimização da DIA são claramente insuficientes quando é patente e reconhecido  que a execução do projeto implica grandes movimentações de terra em um terreno  ecologicamente sensível, o que resultará na remoção de árvores e da cobertura vegetal  existente. Além disso, apesar das medidas correctivas o jardim será implantado em uma cota  artificial, dificultando o acesso universal, especialmente para os residentes que desejem aceder  à zona a partir do sul onde residem mais pessoas. A caracterização do EIA da biodiversidade  da área foi insuficiente, deixando de contemplar adequadamente a função de corredor  ecológico para aves e mamíferos, a importância dos polinizadores, da entomofauna, da flora e  do estrato arbustivo a ser destruído. Apesar das medidas de minimização de impactos da DIA, a  longo prazo, o impacto sobre estes elementos será significativo, afetando também funções  essenciais como a prevenção da erosão dos solos, a retenção de águas pluviais e, como já 

referido, a mitigação de cheias. A DIA deve prever uma compensação desses impactos  nomeadamente pela criação adicional de espaço verde/naturalizado, de solo permeável,  de uso público e acessível, na área da freguesia ou nas proximidades. 

Geração de Tráfego 

A DIA não contabilizou bem os impactos da Geração de Tráfego aceitando como certo um estudo  de tráfego pouco credível. Trata com leveza inaceitável a construção de um espaço educativo  para 600 alunos, com forte sobrecarga nas infraestruturas da zona: segundo os inquéritos da  CML Mãos ao Ar, 72,9% das crianças do privado destes níveis de ensino chegam à escola de  carro, logo cerca de 450 viaturas serão expectáveis em cada um dos períodos de entrega de  crianças e jovens. De forma aproximada, equivalem a uma fila de cerca de 2 Kms, duas  vezes ao dia. Se adicionarmos a oferta de mais de 300 lugares de estacionamento privado para  residentes do condomínio privado, é de antever inaceitáveis congestionamentos e aglomeração  de veículos. 

Qualidade do Ar 

A forma como a resposta é dada às preocupações legítimas da participação pública em relação  aos impactos da qualidade do ar pelo aumento considerável do tráfego nas vias adjacentes é  irresponsável, não quantificada e uma previsão optimista baseada na “renovação natural de frota  que ocorrerá e que terá emissões mais baixas por veículo.“ Parece desconhecer que a previsão  de quando os veículos elétricos constituirão uma percentagem considerável da frota automóvel  é desconhecida e poderá demorar décadas. Ignora também que as partículas emitidas por  veículos sem origem na queima de combustíveis fósseis, também chamadas de partículas não exaustivas, incluem aquelas geradas pelo desgaste de pneus, freios e do pavimento, além da  ressuspensão de poeira dos pavimentos. Esses tipos de emissões podem ser uma fonte  significativa de poluição do ar, mesmo para veículos elétricos, que não emitem partículas  diretamente relacionadas à combustão. Um estudo da Agência Europeia do Ambiente (EEA) 

indica que as partículas não-exaustivas podem representar entre 35% a 60% das emissões totais  de material particulado fino (PM2.5) e material particulado grosseiro (PM10) de veículos a  combustão. Enquanto os veículos elétricos eliminam as emissões de combustão, suas emissões  não-exaustivas irão permanecer comparáveis ou até superiores aos veículos a combustão,  especialmente por serem mais pesados. Estudos apontam que as partículas não-exaustivas  irão dominar as emissões veiculares nas próximas décadas. 

Talvez por isso a justificação é que a situação já é muito má devido ao “peso do tráfego gerado  nas grandes vias de tráfego, existentes na envolvente” e por isso o que é referido como “pequeno  acréscimo” (mais uma vez não quantificado) é classificado como impacto pouco significativo.  Esta conclusão surpreendente parece ignorar as partículas em suspensão no ar, especialmente  o material particulado fino (PM2.5) e o material particulado grosseiro (PM10), que têm sérios  impactos sobre a saúde humana, uma vez que conseguem penetrar profundamente no sistema 

respiratório. A tendência das boas práticas não é considerar que ficar um pouco pior, numa  situação que já é altamente prejudicial para os residentes, como aceitável. Apesar de se  reconhecer que na zona a presença de NO2 no “ar ambiente estejam atualmente em  ultrapassagem do valor limite anual deste poluente”, parece ignorar que a Organização Mundial  de Saúde já reduziu em baixa os limites considerados nocivos para a saúde em Portugal. Isto é,  no futuro as exigências relativamente à qualidade do ar serão muito maiores e  incompatíveis com os níveis de tráfego gerados por esta proposta.  

A DIA deve prever uma medida de restrição de circulação automobilística para não-residentes e  veículos não-comerciais, garantindo as baixas emissões na área. Deve ainda prever  monitorizações regulares da qualidade do ar após a abertura da escola, cujos resultados devem  ser públicos e divulgados na freguesia. 

Ruído 

Como se reconhece, o impacto do ruído provocado pelo tráfego, durante a fase de exploração,  terá um impacto negativo significativo: 

Durante a fase de exploração, e relativamente à situação de referência, os mapas de  ruído evidenciam incumprimento dos valores limite nas fachadas dos recetores sensíveis  da Calçada da Ajuda. As previsões relativas à situação futura evidenciam que a  concretização do projeto e o consequente acréscimo de tráfego implicam um aumento da  extensão do conflito na Calçada da Ajuda, o que se traduz num impacto negativo  significativo. 

As medidas de minimização da DIA são vagas e irrealistas: 

Incorporar no projeto de execução a solução apresentada pela entidade licenciadora,  relativamente a Calçada da Ajuda (adoção de pavimento poroso), com especificação de  qual o troço da via a pavimentar, de forma a corresponder a previsão de contribuir em  cerca de 1 dB(A) de redução dos níveis sonoros regulamentares; 

A Calçada da Ajuda que funciona como acesso a um equipamento histórico de elevado valor tem  como pavimentação cubos de granito e deve continuar a ter para preservar o carácter histórico  do percurso. Ora, como está amplamente estudado, os pavimentos de cubo de granito são mais  rugosos e possuem descontinuidades devido ao formato irregular das peças e ao espaçamento  entre elas. Isso gera uma maior vibração. As superfícies mais rugosas tendem a amplificar o  ruído causado pelo contato entre os pneus dos veículos e o solo. Acrescente-se que em áreas  com edifícios próximos e ruas estreitas, como as ruas adjacentes ao projeto, o som gerado pelo  atrito dos pneus no pavimento de cubo de granito é amplificado pelas superfícies das  construções, resultando em uma reflexão e propagação do som.

Mas também se reconhece que não é só a Calçada da Ajuda que será afectada pelo impacto do  ruído durante a fase de exploração: 

Também na Rua da Bica do Marquês, estima-se que, na situação futura, o ambiente  acústico dos edifícios de habitação localizados no lado sul sofra um acréscimo máximo  de 1 dB(A), o que implica, que estes locais passam a estar sujeitos a níveis sonoros em  desconformidade com o RGR no período noturno, o que se traduz num impacte negativo  significativo. 

No entanto, há uma confiança não justificada, nem quantificada, com afirmações de fé,  incompreensíveis, de que haverá uma “minimização dos impactes do projeto no ambiente  acústico da envolvente da Rua da Bica do Marquês, desde que as medidas de redução sonora  definidas pelo proponente e pela CML sejam integradas no projeto de execução.” 

Propõe-se por estas razões que a DIA integre uma condicionante de apresentação à Junta de  freguesia da Ajuda da listagem das medidas de redução sonora adotadas e tornadas públicas. 

Tipologia de habitação e casas de rendimento acessível 

Não tendo sido previstas habitações de tipologia diversa neste projeto, atendendo às  necessidades da população e à realidade social da freguesia da Ajuda, propõe-se que a DIA  incorpore medidas de minimização do impacto socioeconómico deste projeto prevendo a  criação de habitação de renda acessível noutro local dentro da freguesia ou nas  proximidades, responsabilidade do promotor. 

Existem precedentes ao nível nacional – e as melhores práticas de políticas de habitação e de  mitigação dos danos sociais da crise habitacional apontam a urgência dessas medidas. 

Défice democrático em todo o processo 

Por último, apontamos o défice democrático que este tipo de processos de licenciamento local  apresenta e em que os momentos de consulta pública se tornaram vazios performativos e com  falhas graves, nomeadamente o lançamento deste processo em plena pandemia e a extensão  (mais de 500 páginas neste momento a consulta, sem sumários executivos ou documentação  que facilite a participação cidadã): o prestar de contas e o diálogo são inexistentes, com falta de  resposta e sem correção suficiente das deficiências que este projeto tem apresentado nas suas  sucessivas fases e que foram atempadamente apontadas pelos cidadãos e pelas cidadãs da  Ajuda. 

Gostaríamos que gestores técnicos e executivo camarário gerissem, a partir de agora, de forma  cuidadosa e atenta este projeto de construção de habitação planeado para uma zona tão  sensível, histórica, social e ambientalmente – e que o processo fosse, a partir de agora,  verdadeiramente positivo para a população da sua cidade. Não esperamos menos, sr.  Presidente.